BBAS3: A Crise do Agronegócio e o Impacto no Banco do Brasil
Ações do Banco do Brasil Despencam em Meio a Projeções de Lucro Fraco e Crescente Inadimplência no Setor Rural
👤 Por: Valor Moeda
📅 Data: 02/08/2025
🕒 Horário: 01:49
🏷️ Editorial:
Mercados
A recente e acentuada queda das ações do Banco do Brasil (BBAS3) não é um evento isolado, mas sim um reflexo da crescente pressão sobre o setor do agronegócio e, consequentemente, sobre as instituições financeiras que o financiam.
A notícia inicial destacou a surpresa do mercado com a rapidez da desvalorização, que ocorreu após a divulgação dos dados operacionais de maio pelo Banco Central. Segundo os dados, o lucro líquido do BB foi de apenas R$ 516 milhões no mês, muito abaixo das projeções. Para o segundo trimestre de 2025, a expectativa é de um lucro de R$ 3,5 bilhões — valor 31% inferior à estimativa do Bradesco BBI, que era de R$ 4,89 bilhões.
O cerne do problema está na inadimplência do crédito agrícola. O Banco do Brasil, como maior financiador do agronegócio no país, é também o mais exposto a essa vulnerabilidade. Relatórios recentes indicam que a inadimplência entre produtores rurais pessoas físicas atingiu 7,6% ao final de 2024 — um aumento de 0,8 ponto percentual em relação a 2023. No primeiro trimestre de 2025, a inadimplência na carteira de crédito agro do BB chegou a 3%, um salto de 2,5 vezes em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Essa deterioração é impulsionada por fatores cíclicos e estruturais. A queda acentuada nos preços de commodities importantes, como a soja, entre 2023 e 2024, aumentou o nível de alavancagem dos produtores, levando a mais inadimplência. Além disso, mudanças contábeis impostas pela Resolução 4.966, que exigem maiores provisões para crédito rural, também contribuíram para um desempenho mais fraco no primeiro trimestre.
O BTG Pactual, que já havia reduzido suas projeções para o Banco do Brasil, cortou o preço-alvo das ações de R$ 30 para R$ 24, mantendo recomendação neutra. A nova projeção de lucro líquido para o 2T25 foi revisada para R$ 5 bilhões, com um ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) de 11,1%. Para o ano de 2025, a estimativa passou a ser de R$ 23,5 bilhões, com ROE de 12,5%. Esses números estão abaixo do consenso de mercado e representam uma redução significativa em relação às projeções anteriores do próprio BTG.
Analistas destacam ainda desafios estruturais além da conjuntura econômica. Há relatos de que o Banco do Brasil deixou de ser o banco principal para alguns produtores, que acabam priorizando outros pagamentos. A utilização de armazenagem terceirizada para grãos dados como garantia também enfraquece a posição do banco em casos de execução de colaterais. Além disso, a Lei 14.112/20, que permite a recuperação judicial por produtores rurais, vem tendo impactos mais recentes, já que entre 2021 e 2023 a inadimplência esteve em níveis historicamente baixos.
Outro fator relevante é a entrada de novos produtores de soja, atraídos pelos altos preços nos últimos anos. Como muitos deles não são clientes tradicionais do BB, sentem-se mais à vontade para recorrer à justiça em caso de dificuldades, sem medo de perder acesso ao crédito subsidiado.
Diante desse cenário, o mercado espera que o Banco do Brasil revise sua projeção de lucro líquido ajustado para o ano, possivelmente para algo entre R$ 21 bilhões e R$ 25 bilhões, além de reduzir o payout para cerca de 30%. A recente troca na liderança do agronegócio dentro do BB — com a saída do VP da área e a entrada de Gilson Bittencourt — também reflete a pressão sobre o setor e a busca por novas estratégias para mitigar riscos.